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O Imperador dos Estados Unidos

Publicado em mondo bizarro por Ronzi Zacchi em Outubro 6, 2005

Norton IJoshua Abraham Norton, você já ouviu falar nesse nome? Não? Bom, ele pertencia a um cara engraçado, baixinho, roliço, meio bonachão, com aquelas barbas estranhas do século XIX, que dava um ar de lontra preguiçosa ao seu dono.

Você está se perguntando o quê esse tal Joshua tem para chamar minha atenção ao ponto de dedicar um artigo inteiro em sua homenagem? Nada, a não ser o fato de ele ter se auto-intitulado o primeiro Imperador dos Estados Unidos da América.

Não, eu não estou te sacaneando, pelo menos não dessa vez.

Joshua Abraham Norton foi um inglês nascido em 1819. Ainda criança seu pai levou a família para a África do Sul e lá conseguiu alguma fortuna em um pequeno império comercial. No ano de 1849 o pai de Norton morre e deixa os negócios na mãos do rapaz, o que ele faz? Sensatamente joga tudo na mão da mãe, pega sua parte e sai para se aventurar mundo afora.

Primeira parada: Império do Brasil.
Não sei o que ele vei fazer por aqui, mas a estada do futuro imperador estadosunidense aqui no país das bananas durou pouco e logo quando descobriram ouro na Califórnia, lá se foi com sua fortuna coçando nas mãos. Ao chegar a São Francisco abre um armazém que o deixa milionário em cinco anos, então ele resolve apostar toda a grana no mercado de arroz que ele queria monopolizar. Resultado, perdeu tudo em um único dia, ficou falido, sem casa, comida, trabalhado, nada. E foi nessa situação que deixaria muitos a um passo do suicídio que fez Joshua A. Norton tornar-se o malandro mais esperto da história.

Em setembro de 1959, Joshua adentra a sala do editor do San Francisco Bulletin, e declara em alto e bom tom: “Eu sou Norton I, Imperador dos Estados Unidos da América”. Todo mundo cai na gargalhada e obviamente o expulsam do lugar. Ao voltar para sua mesa, o editor encontra em uma folha de papel suja a proclamação inicial do Imperador Norton, e sabe-se lá a razão (ou falta dela), ele resolve publica-la na primeira página do jornal, e no mês seguinte publica também o primeiro decreto do alegado monarca, a dissolução por completo do Congresso devido a corrupção e depunha também o presidente por ser um ladrão filho-da-mãe. Os EUA haviam se tornado uma monarquia, e Joshua Abraham Norton seu primeiro imperador.

Ninguém em Washington dera muita atenção ao novo monarca o que o deixou indignado, e obrigou-se a escrever uma carta ao comandante do exército que ordenava a imediata invasão do Congresso, e não satisfeito convocou todos os governadores da união para desempossá-los. Inexplicavelmente ninguém apareceu, mas isso não era o suficiente para fazer Joshua desistir, quase ao mesmo tempo baixou um decreto onde anexava o território mexicano ao seu império e “Protetor do México” ao seu título nobiliar. O motivo para anexação era óvio, a incompentência dos mexicanos de se auto-governarem.

Com suas proclamações, medidas e o uniforme militar pomposo que vestia, Norton acabou ficando popular e querido pela população e pelo prefeito da cidade, e como ele era Imperador, nada mais justo que seus súditos o sustentarem. Recebia comida, moradia e transporte gratuitos e como não tinha fonte de renda, baixou mais um decreto regularizando um imposto em que os lojistas deveriam lhe pagar de 25 até 50 centavos por semana, e os bancos eram “obrigados” a lhe pagar 12 dólares mensais. A maioria pagava gargalhando desvairadamente, mas pagava.

Seu palácio consistia em um apartamento de apenas um cômodo, sem banheiro e onde havia basicamente uma cama, um quadro de Napoleão Bonaparte e um da Rainha Vitória. Cumpria rigorosamente um expediente de oito horas diárias, onde inspecionava os transportes públicos, o comércio, recolhia impostos e chegou até a verificar pessoalmente os esgotos da cidade. Para que não lhe acusassem de discriminação religiosa frequentava todas as igrejas, uma por semana.

Ao entrar em orgão públicos ou teatros, bares as pessoas levantavam-se e saudavam-no respeitosamente curvando-se e não olhando diretamente para seus olhos reais. Quando foi preso por vadiagem por um oficial novato, transferido de outra cidade, a população ficou revoltada, o próprio chefe de polícia foi libertá-lo. O Imperador só perdoou o ultraje quando ao seu apartamento foi uma delegação do conselho municipal e o próprio prefeito desculparem-se.

Seu uniforme depois de um tempo estava velho e puído, Norton então publicou um proclamação onde dizia: “Sabeis que nós, Imperador Norton, estamos deveras descontentes com nossos súditos e vassalos a saber: o guarda-roupa real é uma desgraça para a nação”. No mesmo dia o conselho munipal organizou uma votação de emergência em qual aprovava a liberação de fundos para a compra de novas vestes para o Imperador.

Em outro acontecimento, a refeição gratuita de Norton foi negada em um trem da Central Pacific, o que lhe levou a abolir a companhia que era a mais importante da Costa Oeste. Recebeu um pedido formal de desculpa dos proprietários, o funcionário que lhe negou a comida foi despedido e recebeu um passe livre vitalício na 1ª classe dos trens, permitiu então que empresa continuasse seu funcionamento normal. No período em que os EUA entraram na guerra da secessão, o Imperador preocupadíssimo veio a público e convidou Abraham Lincoln e Davis para para reunirem-se, ele gentilmente serviria de mediador para que se desse fim a rusga entre seus dois governadores. Para sua surpresa ninguém compareceu, ele ordenou então que imediatamente o fim das hostilidades.

O povo de São Francisco continuou aplaudindo e se divertindo com Norton até sua morte em 08 de janeiro de 1880. seu caixão ficou em exposição por dois dias e por ele passaram mais de dez mil súditos fiéis para despedirem-se do primeiro e único Imperador dos Estados Unidos da América. Em sua nota de falecimento estava escrito: “O Imperador Norton não matou, não roubou e não expulsou ninguém de seu país. Poderíamos dizer isso da maioria dos indivíduos que exerceram seu cargo?”.

Joshua Abraham Norton, Imperador dos Estados Unidos e Protetor do México, está enterrado no cemitério de Woodlaw, em São Francisco, e sua lápide anuncia: “R.I.P. – Imperador Norton I”.

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