Daniel Galera
Daniel Galera participou ativamente como colunista dos sites Proa da Palavra e CarsosoOnLine, como tradutor é responsável, entre outras obras, pelas versões brazucas de Pornô e Trainspotting, de Irvine Welsh e Blues de Robert Crumb. Através da editora fundada por ele em conjunto com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, lançou o livro de contos Dentes Guardados, que ganhou adaptações para o cinema e teatro, e o romance Até o Dia em Que o Cão Morreu que está em processo de adaptação para as telonas, onde será dirigido por Beto Brant.
Nesta entrevista concedida ao Portal Open Head, Daniel Galera recusa rótulos, fala de seu projeto com a banda Blanched, onde é baixista e sobre seu último livro Mãos de Cavalo, lançado esse ano, que o coloca como um dos autores nacionais de maior destaque na atualidade.
Hermano, o personagem principal de ”Mãos de Cavalo” analisa a própria vida através de uma seqüência de ritos de passagem. Você acha que os ritos de passagens ainda são necessários e determinantes na vida do homem moderno?
Acho que sempre serão. Mas eu não gosto muito do termo “rito de passagem”, porque parece sugerir que os tais ritos são comuns a todas as pessoas e acontecem num esquema mais ou menos previsível dentro de nossas vidas. A vida é mais caótica do que se gostaria de acreditar. Acho que o personagem do livro sofre diversas pequenas rupturas em sua visão de mundo.
Hermano sofre constantemente devido ao seu passado. Você acredita que o passado pode ser uma marca indelével na personalidade e no caráter do homem?
Em cada momento da vida, somos um acúmulo das experiências vividas em todos os momentos anteriores. Mas cada pessoa lida com o passado de formas diferentes. Algumas querem negá-lo e, dessas, algumas conseguem e outras não. Acho que meu personagem tem dois passados, uma vida dividida em duas metades, separadas por um momento de suposto autoconhecimento, que é o episódio que encerra o livro. Mas não sei dizer se o passado é uma marca indelével. Acho que esse tipo de pergunta não permite respostas definitivas.
Você lança mão de descrições que esmiúçam os lugares, coisas e personagens no seu livro. Não teme sobrecarregar a narrativa com um excesso de detalhes?
Temo. Mas julguei necessário, achei que o detalhismo contribuiria para uma história que se apóia tanto na memória do personagem e nas impressões do que acontece no presente. Foi uma escolha, e acho que funcionou.
Em um texto de Eduardo Veras ele fala sobre o “caráter renovador” de seus textos, mas seu blog “Racho Carne”, você diz que acha a expressão um pouco forte e que considera seus livros bastante conservadores. O que o faz pensar assim sobre sua própria obra?
Olhando para qualquer um dos meus três livros, não considero nenhum deles renovador, e meu objetivo ao escrever não é renovar ou inovar. Minha ambição é somente contar uma história de um jeito intrigante, que traga emoções diversas ao leitor, e expressar aquilo que me move a escrever determinado texto. Ter uma voz literária original não é o mesmo que ter “caráter renovador”.
“Mãos de Cavalo” é o seu terceiro livro, mas o primeiro a sair por uma grande editora, A Companhia das Letras. Você acha que as editoras nacionais dão pouco espaço para novos nomes atendo-se apenas aos clássicos e/ou nomes consagrados?
Não. O espaço aos novos autores é reduzido, mas ele existe. Combinando editoras grandes e pequenas, o espaço para os novos nomes é bem razoável.
Seu segundo livro “Até o dia em que o cão morreu” está sendo adaptado para o cinema por Beto Brant que entre outros, dirigiu “O Invasor”, outra adaptação, desta vez de Marçal Aquino. Você tem alguma participação na roteirização? Ou é consultado de alguma forma?
Fui consultado em alguns momentos e participei de leituras do livro, mas o roteiro não tem interferência minha. Não tenho participação autoral nenhuma no filme.
Como foi dito, “Mãos de Cavalo” é seu terceiro livro. O primeiro, “Dentes Guardados” (2001), teve contos adaptados para o cinema e teatro, e segundo está em processo de produção. Você se incomoda quando a mídia ainda refere-se a você como uma “promessa” ou uma “revelação” da literatura nacional?
Não ligo para uma coisa nem outra. Reconhecimento é bom, mas às vezes traz amolações e constrangimentos. O melhor é não pensar muito nisso. Prefiro depoimentos pessoais dos meus leitores do que pareceres publicados na mídia. A parte das críticas que me interessa é a que trata do texto propriamente dito.
Você participou do Proa da Palavra e do CarsosoOnLine e mantém um blog com certa freqüência. Pode-se dizer que a internet tem alguma participação na sua formação como escritor?
Claro, foi meu principal meio de publicação durante anos. Experimentei muito com meu texto na internet e conheci muitas pessoas que tiveram papel decisivo na minha formação como leitor e escritor.
Emendando uma na outra, qual sua opinião sobre weblogs e as demais ferramentas de publicação de texto na Web? Elas de alguma forma colaboram com a literatura?
Perguntar qual minha opinião sobre weblogs seria como perguntar qual minha opinião sobre as revistas, ou sobre a televisão. É uma ferramenta, um veículo, e como tal o blog comporta todo tipo de coisa. Acho o conceito de blog estimulante, facilita muito a publicação na web. Ao mesmo tempo em que isso abre espaço para muita bobagem, permite que muita gente talentosa ponha seus textos à disposição. O que se chama de “literatura” pode estar em qualquer suporte, inclusive blogs e sites. Nesse sentido, o blog é sim um aliado de quem escreve.
Você, Daniel Pellizzari e o pessoal da Livros do Mal lançaram autores que provavelmente nunca teriam oportunidade de ver suas obras em uma grande editora. Qual o motivo que os levou a encerrar os trabalhos da editora?
A editora foi crescendo e exigindo cada vez mais de nós. Demos preferência a nosso trabalho como escritores e tradutores, foi só isso. Mas a maioria dos autores publicados pela LDM conseguiu seguir publicando por outras editoras, em alguns casos editoras grandes.
Como anda seu projeto com a banda Blanched? Depois dos dois EP’s vocês tem planos de gravar um Álbum ou a música para você é passatempo?
Não diria que é somente um passatempo, mas nunca almejei uma carreira como músico. Toco por gosto, por prazer. A Blanched está parada, porque me mudei para São Paulo e o Leonardo, líder da banda, vai estudar um tempo em Buenos Aires. Ainda nos falamos e tocaremos juntos de novo na primeira oportunidade, mas não sabemos quando isso pode acontecer. É improvável, mas não impossível, que tenhamos a chance de gravar mais um EP com músicas novas que nunca foram registradas. Mas nunca pensamos em um álbum de longa duração.
Tem algum novo projeto literário em andamento?
Estou matutando a idéia para o meu próximo livro, que provavelmente será mais um romance, e provavelmente bem diverso do Mãos de Cavalo. Fora isso, tenho procurado traduzir novos autores de língua inglesa. Estou concluindo agora a tradução do livro de estréia do norte-americano Benjamin Kunkel, “Indecision.” E penso em escrever algumas reportagens ou artigos ao longo desse ano.
Mãos de Cavalo
Editora: Companhia Das Letras
Páginas: 192
Preço: 34,00
*Entrevista originalmente publicada no site www.openhead.com.br em 29/05/2006.