Cultura E-nútil

Folk made in Islã

Publicado em vitrola por Ronzi Zacchi em Janeiro 10, 2007
Alguém pode me explicar como um cara que vende quarenta milhões de discos em todo mundo, é adorado por toda uma geração, tem a grana que precisar ao seu dispor, poder pegar a mulher que quiser, de repente, do nada, como se um raio tivesse partido sua cabeça, resolve abandonar tudo isso como se não tivesse a menor importância?

Bem, Yusuf Islam deve responder essa pergunta com muita freqüência pelos lugares onde passa. O quê? Você com sua franjinha comprida tingida com henné, nunca ouviu falar de Yusuf Islam?

Não chore meu pequeno e indefeso emo, seu pai e sua mãe provavelmente devem ter em algum lugar um disco dele guardado, talvez não com esse belo e quase indecoroso nome que resolveu adotar, mas com certeza se perguntar à eles sobre Cat Stevens, brilhará nos olhos deles uma luz indicando os saudosos tempos onde o folk dominava as rádios e “pancadão” significava apenas que uma carreta havia amassado a Belina nova do seu pai.

Onde ele arranjou esse nome totalmente excelente (sem piadas quanto ao meu nome, ainda sou o deus apolíneo, onipotente e onipresente dessas bandas!!)? Simples, a maneira mais fácil de ganhar um nome como esse é converter-se ao Islã após um quase óbito por afogamento, como aconteceu com nosso astro. Após sua conversão, o compositor de “Morning Has Broken”, “Peace Train” e “Oh! Very Young” simplesmente abriu mão de sua promissora carreira e decidiu dedicar seu tempo em atividades beneficentes em prol de sua religião.

Permaneceu assim quase 30 anos afastado da mídia, recusando a associar seus sucessos a qualquer filme, trilha ou comerciais de TV, pois muitas de suas canções retratavam suas antigas idéias e Yusuf não queria mais ser associado a elas, apesar de seus discos continuarem vendendo 1,5 milhão de cópias por ano e lhe rendendo uma bela quantia em bufunfa (que ele definitivamente não recusa), com a qual já financiou três escolas mulçumanas em Londres e ajudou diversas organizações sem fins lucrativos.

Mas, não estou aqui para dar uma de biógrafo do cara e sim para comentar que o barbudão resolveu finalmente sair da toca e lançar um disco de (quase) inéditas no final de 2006. Esqueçam o tal Devandra, sua voz de taquara e seu guarda-roupa bizarro, Yusuf com suas barbas brancas é a verdade no folk.

Obviamente, não espere uma revolução musical em “An Other Cup”, afinal, verdade seja dita, o folk é um ritmo que já deu o que tinha que dar há pelo menos 20 anos. Entretanto, isso não quer dizer que o disco não é bom a sua maneira e por incrível que pareça, uma das boas novidades do álbum fica ao encargo de uma regravação: “I think I see the light” lançada no melhor disco de Cat, “Mona Bone Jakon”, de 1970 e que agora parece uma versão Jack Johnson riponga. “One day at the time” e “In the End” também cumprem bem seu papel e trabalham bonito com a mimosa “Heaven (Where True Love Goes)”.

Poderia até dizer que a aposentadoria fez muito bem ao velhote, nada como gravar um disco sem compromisso para que ele tenha uma fluência bacana. E para não me estender demais: “An Other Cup” é um disco feito para ser ouvido num dia de sol, com o vento batendo na cara e um belo broto de bambu do lado.

Velhinhos e seus geriatras

Publicado em vitrola por Ronzi Zacchi em Janeiro 3, 2007
Sempre fico desconfiado com reuniões, reencontros, revivals e coisas do tipo. Afinal, quantas bandas velhas após vestirem uma roupagem nova produzem algo de inovador? Exatamente o número que você está calculando, ou seja, nenhuma.

Não que seja obrigatório o lançamento de um disco novo para o retorno de uma banda de vovôs do rock, mas tomando como exemplo os Mutantes que resolveram dar uma canja ano passado (mesmo depois de seus membros tornarem-se zumbis sexagenários com o cérebro corroído pelo uso excessivo de LSD), gostaria que alguém me explicasse como uma banda com a representatividade histórica deles arrisca jogar tudo na privada em um retorno onde a principal figura da banda não está presente.

Claro, podem até alegar que a Zélia é tão competente quanto Rita e não está fazendo feio, mas convenhamos que é igual ao Doors sem Jim Morrison ou Queen acompanhado de George Michael: simplesmente não são as mesmas bandas, soam como covers da banda original. E cover, meu povo, não é nada.

O mesmo caminho agora trilha o Gênesis. O grupo anunciou sua volta triunfal do poço profundo do esquecimento musical sem a presença de seu líder, Peter Gabriel, o responsável pela composição de todas as músicas da banda que valem o esforço de apertar o “play” no controle remoto. Mesmo assim, Phil Colllins, Peter Rutherford e Tony Banks já confirmaram uma turnê pela Europa a partir de 11 de junho. Phil alega que Gabriel está “excessivamente cauteloso com a idéia de reviver o passado”. Baboseira.

Não bastando o Gênesis, outros reencontros musicais estão previstos para 2007. Segundo o “Daily Mirror”, o The Police planeja uma série de shows para comemorar seus 30 anos. Só para relembrar, Sting & Cia. estão separados há mais de 20 anos, o que reduz significantemente a carreira deles em menos de 10 anos. Supimpa como a matemática pode ser uma ciência bastante batuta, não?

Como disse Rita Lee ao ser questionada sobre sua recusa ao retorno dos Mutantes: no final, todos ficam parecendo um bando de velhinhos espertos tentando descolar uma graninha para pagar seus geriatras.

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Das profundezas do inferno

Publicado em pipoca por Ronzi Zacchi em Janeiro 2, 2007
Após um reveillon chuvoso e um retorno caótico a civilização, nada como uma ótima notícia para começar o ano: Zé do Caixão, o mais adorado personagem do cinema brasileiro está de volta para atormentar nossas noites.

Quarenta anos após ter sua alma levada para arder eternamente no fogo do inferno em “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (produzido em 1966 e lançado em 1967), José Mojica Marins retorna as telonas com o último episódio de sua trilogia satânica, iniciada em 1964 com “A Meia Noite Levarei Sua Alma”.

Aos setenta anos de idade, Mojica finalmente conseguiu tirar do papel o seu “A Encarnação do Demônio”, filme no qual seu personagem de maior destaque, Zé do Caixão, segue com sua busca para conceber um filho com a mulher perfeita (no melhor estilo bebê diabo de ser).

Mojica estava há mais de 20 anos delegado ao limbo, com seus filmes esquecidos por uma nova geração de produtores mais interassados em desvencilhar o cinema nacional das pornochanchadas filmadas durante o período da ditadura militar e que, erroneamente, acabaram por “arquivar” também as obras de um dos grandes cineastas brazucas, recentemente reconduzido aos holofotes por uma onda cinéfila que tomou conta da minoria com acesso a cultura neste país.

O responsável pela reanimação do defunto foi o produtor Paulo Sacramento, que traz entre seus créditos o excelente “Amarelo Manga”, e o diretor independente Dennison Carvalho. Os dois passaram seis anos reescrevendo o roteiro e captando verba para as filmagens realizadas em sociedade com a Gullane Filmes.

O longa-metragem contou com a participação de Zé Celso, figurinos do fashionista Alexandre Herchcovitch e levou um total de quarenta dias para ser filmado. Nesse meio tempo, Mojica enfrentou diversos demônios para finalizar sua trilogia: grana de menos, burocracia demais, uma adaptação complicada às mudanças radicais na tecnologia e, não bastando tudo isso, a morte do amigo Jece Valadão no meio das filmagens.

“Hoje em dia, para filmar uma aranha é preciso ter certificado do Ibama”, reclamou em uma entrevista sobre a dificuldade de conseguir permissão para usar animais em cena. Todos bichos usados em “A Encarnação do demônio” vieram do estrangeiro, pois o órgão governamental não permite o uso de espécies nativas.

A produção contou com setenta técnicos (o máximo que Mojica havia trabalho eram quinze), e ao que parece também está com doses de violência muito mais explícita do que quando os censores da ditadura extirpavam cenas inteiras dos seus filmes.

Ao que parece, podemos esperar muito sangue, miolos e sustos no desfecho maligno da trilogia mais aguardada pelo diabo… Mal posso esperar para ver.