Cultura E-nútil

Tabu: América Latina

Posted in body art, comportamento by Ronzi Zacchi on maio 21, 2010

Pois é, ontem rolou um burburinho na internet devido a uma ação de divulgação feita pela NatGeo para seu programa Tabu: América latina, com estréia marcada para esse domindo, dia 23, às 22 horas.

Como o primeiro episódio é dedicado à modificação corporal, o canal chamou o blogueiro Rafa Gnomo (@rafagnomo) para realizar uma suspensão corporal de 50 metros de altura, em plena Avenida Paulista. O evento foi mostrado ao vivo, em streaming de vídeo, no site do programa. Como não podia deixar de ser nesses tempos modernos, a ação teve participação ativa no Twitter, onde os comentários marcados com a hashtag #tabu faziam o cara subir cada vez mais.

Não estive presente, afinal, alguém tem que trabalhar nesse mundo, mas acompanhei a transmissão on line (mesmo que cheia de bugs) e, o que mais me assustou, os tuites. Claro que sempre existem os que motivam intervenções desse tipo, entretanto, a quantidade de pessoas que se revoltaram me pareceu muito maior. As frases iam desde “isso é coisa do demônio” até “tomara que o cabo estoure”.

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The Blood Red Project

Posted in atualidades, body art by Ronzi Zacchi on setembro 15, 2009

Após 25 anos de campanhas publicitárias, sejam elas iniciativas gorvernamentais ou públicas, ao ouvirmos falar de um indivíduo que contraiu o vírus HIV, a primeira reação de muitos será julgá-lo, afinal como alguém ainda pode contrair esse vírus após décadas de bombardeamento pela mídia? Provavelmente, a segunda reação será um comentário como "ainda bem que hoje já temos medicamentos que permitem ao soropositivo conviver com a doença", ou qualquer outro do tipo e em seguida acabaremos por esquecer o assunto.

A verdade é que a AIDS não assusta mais, seja devido aos avanços no tratamento sintomático ou a banalização da informação quanto aos ricos de contração do HIV, existe hoje na sociedade contemporânea uma grande cegueira quanto a doença. As consequencias dessa cegueira é o atual aumento de contágio em pessas acima dos 50 anos, que hoje se tornaram grupo de risco, juntamente com os usuários de drogas injetáveis.

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Moko

Posted in body art by Ronzi Zacchi on julho 20, 2009
Tatuagem Moko

Tatuagem Moko

Por mais que as técnicas de tatuagem moderna evoluam constantemente, trazendo para os estúdios novos pigmentos, máquinas e maneiras de aplicar a tinta à pele, alguns dos mais bonitos trabalhos realizados continuam sendo feitos de maneira tribal, com técnicas ancestrais e materiais rústicos, como é o caso da Moko, a tatuagem maori.

A grande maioria dos trabalhos Moko impressionam pelo nível de detalhamento e simetria que os seus desenhos tribais apresentam, formando verdadeiros caleidoscópios de linhas negras pelo corpo e face do tatuado. Além do resultado final, o que mais impressiona é como funciona (ou funcionava) a técnica de aplicação da tinta nesse estilo: através dos ossos do albatroz é feito o uhi, uma espécie de ancinho, ferramenta responsável pela aplicação da tinta vegetal na pele com o auxílio de um pequeno martelo. Por isso a tatuagem tradicional Moko apresenta uma leve quelóide resultante do corte feito para aplicação do pigmento.

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Sailor Jerry

Posted in body art by Ronzi Zacchi on abril 27, 2009
Norman Sailor Jerry Collins

Norman "Sailor Jerry" Collins

Enquanto alguns indivíduos observam confortavelmente a vida acontecer através de sua janelas, munidos de uma geladeira lotada de cerveja e um sofá confortável, outros jogam-se diretamente no meio da correnteza e se deixam levar por ela. Entre esses últimos, indiscultivelmente se encontra Norman Jerry Collins (1911 – 1973), ou simplesmente “Sailor Jerry”, que ao se alistar como voluntário na marinha americana em 1919, não imaginava que o nome dele entraria para a história da tatuagem como o pai do “Old School”.

Pouco tempo após seu alistamento, em suas viagens como marinheiro, adquiriu além de sua primeira tatuagem, também o prêmio de uma exposição dedicada à arte no Sudeste Asiático, fato que viria a influenciá-lo a abrir sua primeira loja de tattoo na Chinatown de Honolulu, na época o melhor lugar para um tatuador, ou seja, era por lá que andavam as prostitutas e consequentemente os marinheiros e soldados beberrões que necessitavam reafirmar sua masculinadade através de uma tatuagem.

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Flesh and Blood

Posted in body art by Ronzi Zacchi on janeiro 19, 2009
Flesh & Blood

Flesh and Blood

Os adeptos, simpatizantes e curiosos da modificação corporal ganharam em 2008 uma nova produção cinematográfica sobre o tema, o documentário Flesh & Blood, dirigido por Larry Silverman e estrelado por ninguém menos que Steve Haworth.

O filme acompanha a evolução do trabalho deste excelente artista da modificação corporal durante o período de 5 anos, mostrando as mais variadas técnicas e materias utilizados, materiais estes muitas vezes desenvolvidos pelo próprio Steve que é um dos pioneiros da modificação corporal e arte 3-D.

Para quem não conhece sua história, inicialmente ele trabalhava com seu pai fabricando e desenvolvendo materais cirúrgicos, principalmente oftalmológicos, até resolver investir em sua própria vocação e criar os mais variados instrumentos, técnicas e métodos de modificações corporais.

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Play piercings

Posted in body art, comportamento by Ronzi Zacchi on junho 3, 2008

Play piercingDando uma xeretada nos intermináveis arquivos do Modblog, hoje o maior, melhor, e talvez o único realmente interessante blog dedicado as modificações corporais no mundo, – No mundo, pois os outros sites e blogs na grande maioria são cópias descaradas do formato que Shannon Larratt desenvolveu com o BMEZine – dei de cara com esse play piercing na foto aí do lado, simplesmente lindo.

Ele é um corset até que simplesinho, mas não dá para negar que o detalhe do trançado prendendo também os braços ficou lindo e dá um toque super fetichista à imagem das duas garotas. Sempre gostei de ver play piercings nas convenções de tatuagem que vou, ou até mesmo pela internet em fotos e vídeos no You Tube.

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Na flor da pele

Posted in body art, comportamento by Ronzi Zacchi on novembro 9, 2007
Você sabe o que é escarificação? Não? Pois senta aí quietinho que o titio te explica.

Escarificação não é nada mais, nada menos do que formar desenhos no corpo de uma pessoa através de cicatrizes que podem ser criadas das mais diversas formas. Na verdade existem muitas técnicas para cortar-marcar-queimar o corpo de uma pessoa, mas disso vou falar depois.

Não se engane ao pensar que essa prática é uma invencionice moderna criada pelo demo, a escarificação existe há alguns milhares de anos em diversas tribos africanas, indianas e do sudeste asiático. Nas Américas era praticada pelas tribos Olmecas, civilizações pré-colombianas que habitaram o sul do México entre 1.200 a.c. e 400 a.c., quase sempre com finalidade ritual. Ainda hoje mulheres sudanesas adornam o corpo com cicatrizes elaboradas para se tornarem mais atrativas na hora de encontrarem um parceiro (toda tampa tem uma panela, a não ser que você seja uma cumbuca) e em papua Nova-Guiné são feitos cortes na pele dos garotos que atingem a puberdade e cobertos com cinzas que influenciam a criação de quelóides, consideradas belas naquela cultura.

Nas civilizações modernas (aquelas que conseguirão destruir o mundo em menos de 200 anos), só recentemente a escarificação deixou de ser pratica exclusiva de cenários S&M e passou a ser encontrada também em outras tribos urbanas motivadas pelo efeito estético que a cicatriz planejada cria na pele.

Técnicas

Não são poucas as maneiras utilizadas para escarificar a pele, pode acreditar. A maioria das técnicas são totalmente experimentais, e provavelmente devem surgir em conversas amigáveis como: “Vamos tentar ácido dessa vez? Deve ficar supercalifragilisticaexpialidosamente foda!”.
Singelo, não? Bem, se é assim que surge uma nova técnica eu não sei, mas vamos as mais utilizadas:

Cutting

Simples como o nome indica, baseia-se em cortar a pele até uma profundidade exata, na maioria das vezes com um bisturi cirúrgico, repetidas vezes e ir formando um desenho.

Aviso: Se você corta os braços com um estilete, rabiscando mensagens alegres e positivas como “Dor”, “Morte”, “Desespero” e variantes, não é um artista e sim um retardado, procure tratamento. Caso um dia for cortar os pulsos não me avise.

Skin removal ou Skinning

É uma variante do Cutting. Ao invés de só talhar a pele da pessoa, o artista remove (“removal” te sugere algo?) áreas da pele para formar uma cicatriz bem mais detalhada e com desenhos mais complicados.

Aviso: Faca de pão não serve.

Branding

Tssssssss! Esse é o barulinho que a pele faz a cada strike do ferro quente. Lembra como se marca gado? Então, é mais ou menos parecido. Segundo os praticantes, o branding por aquecimento de metal não dá um resultado muito consistente e a melhor opção é o bisturi elétrico e suas diversas pontas opcionais.

Aviso: Deixe seu ferro de solda na prateleira da garagem, espertinho.

Chemical Scarification

A essa altura do campeonato já deu para perceber que não é difícil identificar como funcionam as técnicas de escarificação, não é? Chemical é de química, logo, escarificação através de reações químicas. Simples assim. Os reagentes usados são os mais variados possíveis, desde nosso querido acido sulfúrico a hidróxido de sódio (aquele bacanudo do Clube da Luta). O resultado nem sempre é um desenho reconhecível, muitas vezes são só marcas que parecem feitas por homens das cavernas.

Aviso: Não usar soda caustica. Dói.

Cicatrizando

Ao contrário de uma tatuagem ou um piercing, uma bela escarificação não depende somente do artista. 50% do processo é determinado pelo escarificado, mais exatamente pelos métodos utilizados para a cicatriz ficar o mais aparente possível. Outro fator importante é o DNA, o tipo de pele ajuda muito nessa hora também, um pequeno corte pode gerar uma cicatriz aparente em uma pessoa, enquanto um removal pode sequer deixar marcas em outra. O tempo de cicatrização é relativo, leva em média 45 dias, mas há quem demore meses para ver o resultado final do trabalho.

Pode ser necessário usar algum procedimento para aguçar a ferida, como por exemplo tirar as cascas que se formam ou aplicar sal e café, forçando uma infecção. Entretanto-todavia-contudo, o método mais difundo entre s artistas dessa arte de body modification é o Litha ou “Leave it the hell alone” (adoro essa expressão).

Bem, agora você já sabe o que é escarificação, mas se pretende fazer uma, saiba que no Brasil existe um ou outro que se aventura ao explorar esse tipo de modificação, mas ainda engatinhamos perto de países como a Austrália e os EUA que tem estúdios especializados em extreme modifications.

Para saber mais sobre escarificação acesse a enciclopédia da BMEZine. Todas as fotos publicadas nesse artigo são obras de Wayde Dunn, na minha humilde opinião um dos grandes mestres dessa arte.

Miami Ink, L.A. Ink & Blog Legal

Posted in body art, virtual by Ronzi Zacchi on agosto 31, 2007
Estava eu navegando de bobeira pelas sinistríssimas águas virtuais, quando de repente dei de cara com um artigo sobre o site Miami Ink, programinha sobre tatuagem que passa no canal People & Arts., sitando o nome da Kat Von D, tatuadora que apareceu pela primeira vez no reality show quando um dos quatro artistas principais do programa, Darren Brass, fica incapacitado de trabalhar por uma lesão no braço.

Não sou nenhum puritano, daqueles que criticam quando tattoo aparecer na televisão alegando que a mesma deve para sempre sempre fazer parte dos subterrâneos. Primeiro por quê encaro mais como uma forma de expressão artística do que como uma forma individualização e segundo por quê tatuagem é underground e sempre vai ser, não importa quantas Luanas Piovanis façam uma estrelinha no pulso. O fato é que tatuagem e as demais formas de body art são subversivas e ponto.

Sobre o Miami Ink

Acompanho com certa freqüencia a série, afinal todos os membros do estúdio são bons tatuadores e é sempre legal ver o Yoji meter os pés pelas mãos (mesmo sabendo que é armação). Entretanto quando quem tatua é o Chris Garver, o programa ganha um espetáculo a parte. na minha humildíssima opinião de quem entende muito pouco do assunto, ele é um dos feras do Oriental, com um traço fantástico e cores super bacanas.

A única coisa que pesa negativamente e é sempre um chute no saco são os momentos-explicação, onde cada tatuado conta um história triste para justificar o motivo existencial por qual decidiu ricar uma maçãzinha mordida com a frase “Amor Eterno” na polpa da nádega esquerda. Não que certas pessoas tatuem por motivos específicos, mas a grande maioria faz por simplesmente achar bonito, pura estética, sem dramas ou mágoas. Essas explicações sempre dão uma forçada na situação e acabam tornando alguns episódios chatos.

Sobre a Kat Von D

No site pessoal da garota, mais especificamente na área de galeria, você encontra o motivo por qual chamaram essa garota para substituir provisoriamente um dos integrantes da trupe de tatuadores. As obras da moça tem muita personalidade e um traço marcante, com sem falar que ela manda muito bem no realismo petro e branco.

Tão bem que recentemente, no dia 07 de agosto, entreou nos EUA o L.A. Ink, programa nos mesmos moldes do Miami Ink, mas com o destalhe de quase todos os membros do estúdio serem garotas (com excessão do tatuador Corey). Pelo que vi, as tattoos tem um nível tão bom quanto de seus camaradas da Costa Leste.

Não que realmente seja por isso que quem acompanha o programa aguarda ansioamente sua aparição, não é? Basta dar uma olhadinha na foto ao lado que logo se entende…

Sobre o Blog Legal

O tal blog legal é o ModBlog, parte integrante do projeto BMEZine. Atualizado quase diariamente por Shannon Larrat, o foco é exclusivo para modificação corporal e demais assuntos do tema, como suspensão, freak shows, etc. O conteúdo é exclusivo e traz desde fotos de tatuagens até escarificações e labrets em processos de perfuração. As imagens são muitas vezes enviadas pelos próprios visitantes e recentemente contou com a presença brazuca de Jimi dos Diabos Mutantes, grupo freak radicado em Sampa.

Vale o lembre que Shannon não liberara para ninguém as imagens que publica e o blogs é resguardado por copyright.

André Rodrigues

Posted in body art, entrevistas by Ronzi Zacchi on agosto 24, 2007

Alcançar reconhecimento como tatuador em uma cidade como São Paulo não é fácil, em menos de 10 anos de carreira nem se fala, afinal no circuito underground da tatuagem a divulgação do trabalho do artista ainda rola no boca-a-boca e basta uma cagada com a agulha para que tudo que foi construído acabe desmoronando de um dia para o outro.

André Rodrigues, atualmente tatuando no Polaco Tattoo Shop, é um desses raros casos, onde um cara com um talento acima da média, conquista um destaque fora do comum em um curto espaço de tempo e consegue se fixar como um grande nome da tatuagem brasileira em meio ao outros como Odilon, Cigano, Leds e o próprio Polaco.

André teve o saco de ceder uma entrevista para o Cultura E-nútil, que você pode ler na íntegra abaixo:

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Lucky Tattoo

Posted in body art by Ronzi Zacchi on agosto 23, 2007
A tatuagem moderna brasileira tem um vánculo estreito com a gelada Dinamarca. Foi desse país do norte Europeu que veio Knud Harald Lykke Gregersen, simplesmente conhecido por Lucky Tattoo, o primeiro tatuador profissional a atuar no país.

No dia 20 de julho de 1959, o tatuador dinamarquês, loiro e corpulento, desembarcou na cidade de Santos, apresentando-se às autoridades como desenhista e pintor. O Arquivo Nacional ainda conserva sua ficha de registro na Delegacia Especializada de Estrangeiros, com o número 78655 destacado no documento.

Estabeleceu-se em um primeiro momento na rua João Otávio, localizada próximo ao porto e na época freqüentada por muitos marinheiros, os principais clientes . Logo depois, no ano de 1963, mudou para a rua General Câmara onde montou seu estúdio com os dizeres “It’s not a saylor if he hasn’t a tattoo” (“Não é um marinheiro se não tiver uma tatuagem”) impressos em uma placa na porta de entrada. Seu ateliê ficava ao lado do restaurante Chave de Ouro, o mais famoso da Boca, o equivalente santista da Lapa carioca, ou ainda do Red District de Amsterdã.

Lucky, ou “Mr. Tattoo” como era chamado pelos clientes, logo se tornou notícia sendo fotografado pela Folha de São Paulo em 07 de janeiro de 1960, menos de seis meses após sua chegada ao país. Antes dele a cultura da tatuagem era inexistente no país, os poucos que carregavam uma tattoo no corpo limitavam-se quase sempre a prostitutas e marinheiros, que tinham seus corpos desenhados por estrangeiros vindos com os navios ancorados no porto e com eles partiam deixando apenas a arte como sinal de sua passagem.

Knud Harald Lykke Gregersen, nasceu na cidade de Copenhague em 14 de maio de 1928, filho de Jens e Ema Gregersen. Seu pai transmitira a ele e ao irmão Ole a paixão pelos pigmentos, era tatuador e seu nome bastante conhecido na Europa dos anos 30 e 40.

Lucky passou quase toda a infância no ateliê do pai e lá aprendeu as técnicas de tatuar com máquina elétrica. Antes de fazer da tatuagem seu principal meio de vida, tornou-se marinheiro aos quinze anos e pagava as viagens e a alimentação com seu trabalho, coloria tripulações inteiras enquanto vagava pelos mares internacionais. Em entrevista ao jornal carioca O Globo, publicada no dia 4 de dezembro de 1975 (meia página do primeiro caderno, com o titulo “Tattoo Lucky, o único tatuador profissional da América do Sul”), Lucky contou ter conhecido o Rio de Janeiro em 1946, aos dezoito anos com um amigo. Seu depoimento é um retrato de duas épocas: os anos 40, à luz do dia, e os anos 50, 60 e 70, à noite.

Trabalhou em Londres, Hamburgo, Gênova, Atenas, e Nova York, numa atividade frenética em terra firme e no mar. Em uma viagem para Rotterdam na Holanda, conheceu Peter de Haan, antes deste consagrar seu nome como Tattoo Peter, um dos lendários tatuadores da old school. A mulher de Peter era cantora, e Peter a acompanhava no acordeom. Peter largou aquela vida por volta da década de 50 e entrou de cara na tatuagem e veio a abrir aquele que seria o estúdio mais antigo da Europa, sobrevivendo após a morte de seu criador em 1984.

Lucky ainda tatuou na Alemanha pós-guerra, usava como estúdio ambulante uma moto equipada com side-car e gosta de narrar a história onde teria tatuado o próprio Rei Frederico da Dinamarca e soldados da Legião Estrangeira.

Na década de 70, quando a tatuagem começou a quebrar alguns tabus e deixou para atrás o estigma de uma arte marginal voltada para marinheiros e prostitutas, penetrando um pouco na classe média, Lucky tatuou muitos jovens cariocas, entre eles José Artur Machado, o “Petit” (1956-1989), cujo dragão inspirou Caetano Veloso a compor a canção “Menino do Rio” e o ator Evandro Mesquita, na época vocalista da banda Blitz, que carrega no braço uma águia de autoria do dinamarquês.

Em 1977, o então jovem Sílvio Santos, entrevistou o tatuador para seu programa na extinta TV Tupi, chegou ainda a ir ao programa de auditório de Flávio Cavalcanti e ter um curta-metragem sobre sua vida produzido.

Lucky permaneceu em Santos durante dezoito anos, mudou-se indignado para Itanhaém, cansado de ser assaltado, permanecendo lá por cinco anos com um. estúdio em Jardim Suarão. Transferiu-se então para Arraial do Cabo, no estado do Rio de Janeiro, onde ficou um ano, até morrer do coração em 17 de dezembro de 1983, com cinqüenta e cinco anos de vida e tatuagem.

Ao morrer, o “Mr. Tattoo” contava quarenta e cinco mil tatuados, em trinta anos de carreira, vinte e quatro dos quais no Brasil. Sua Morte ganhou a primeira página do jornal santista A Tribuna (em cujo arquivo se encontra o mais vasto material sobre a vida do tatuador), na qual a morte do dinamarquês naturalizado brasileiro ocupa mais da metade da página. O texto é assinado por dois tatuadores, um americano e um italiano, que trabalharam no Brasil: Johnathan Shaw e Ciccio.

As atividades declaradas no registro da Delegacia Especializada de Estrangeiros, pintor e desenhista, não eram mentirosas sob nenhum aspecto. Lucky pintou em tela sua clientela, seus vizinhos e amigos, as cenas do porto de Santos com traços primitivistas, que não agradaram os críticos, como nem sempre suas tatuagens agradaram.

Uma pequena parte dos clientes de Lucky não ficava satisfeita com o serviço, que comparado às técnicas modernas não prezavam pela perfeição, e voltavam em outros tatuadores para cobrir o trabalho. Ainda hoje quando entra algum insatisfeito em um estúdio disposto a “reformar” uma tatuagem dele quase sempre os tatuadores tentam fazer o arrependido entender que, por mais imperfeita que seja a arte, uma tatuagem de Lucky significa muito.

Lucky não tatuou apenas as pessoas, gravou a máquina seu nome na história da tatuagem internacional.

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